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Economia

Câmara vota projeto que abre dados de 120 milhões de consumidores

Publicado dia 10/04/2018 às 17h53min | Atualizado dia 12/04/2018 às 23h49min
Projeto que altera o Cadastro Positivo prevê que bancos informem histórico de pagamentos de todos os brasileiros com CPF a birôs de crédito

Para órgãos de defesa, faltam garantias sobre eventuais vazamento de dados

l A Câmara dos Deputados começa a debater nesta terça-feira (10) o novo texto do projeto de lei que prevê liberar automaticamente o histórico de pagamento de todos os consumidores brasileiros para um grupo de empresas formarem o chamado “Cadastro Positivo”. A votação pode acontecer ainda hoje ou na quarta-feira (11). O Cadastro Positivo é um banco de dados com o histórico de pagamentos dos consumidores, principalmente com relação à pontualidade dos débitos de contas. As informações são fornecidas por bancos e por empresas de serviços, como água, luz, internet e telefone. A iniciativa existe desde 2012, mas não pegou. Em seis anos, apenas 5 milhões de brasileiros autorizaram a inclusão de seus nomes no cadastro. Por isso, o governo federal costurou com aliados no Congresso a apresentação do atual projeto de lei com uma mudança substancial: em vez de os consumidores serem consultados previamente se querem ou não participar do banco de dados, eles serão informados, posteriormente, de que seus dados já foram repassados às empresas de avaliação de crédito. Todos aqueles que possuem CPF (Cadastro de Pessoa Física) serão automaticamente incluídos. A medida, se aprovada, atinge as informações de 120 milhões de pessoas. O cadastro é administrado pelos birôs de crédito, como Serasa, SPC, Boa Vista e GIC. Essas empresas criam um cadastro próprio e uma pontuação personalizada para diferenciar “bons” e “maus” pagadores. O objetivo é auxiliar na concessão de empréstimos mais baratos a quem paga as contas em dia, incentivando o mercado a baixar os juros aos “bons” pagadores. De autoria do senador Dalírio Beber (PSDB-SC), o projeto de lei foi aprovado no Senado em outubro passado, mas foi alterado na Câmara pelo relator do projeto, o deputado federal Walter Ihoshi (PSD-SP). Caso seja aprovado, o texto terá que voltar para nova votação dos senadores. Como vai funcionar? Ihoshi afirma que os birôs de crédito terão 30 dias para perguntar aos consumidores se eles querem permanecer no cadastro. — Todos os consumidores serão incluídos, mas aí os gestores terão 30 dias para consultar, “você quer ficar ou não?”, e o consumidor terá a palavra final. Se ele não responder é que ele concordou. Recebidas as informações, cada birô vai dar sua própria nota ao consumidor. Essa pontuação poderá ser consultada — 60 dias após a criação do cadastro — por uma loja onde o consumidor quer abrir um crediário, por exemplo, ou na tomada de um empréstimo. Ihoshi garante que as empresas que farão a consulta terão acesso somente ao “score” (nota) do consumidor, e não a seus dados íntimos de pagamento. O consumidor também poderá visualizar a sua pontuação, diz ele, e se quiser consultar detalhes do banco de dados, poderá fazer uma solicitação formal ao birô, que deve repassar a informação sem custos. O deputado destaca também que a qualquer momento os cidadãos podem solicitar a retirada de seus nomes do Cadastro Positivo. Basta comunicar um dos birôs de crédito, por qualquer meio (telefone, e-mail, etc.), que o banco de dados será excluído de todas as empresas. Vazamento e violação de dados Desde que o Banco Central lançou em 2016 a proposta de criação automática do Cadastro Positivo (assumida pelo senador catarinense), o Ministério Público Federal e órgãos de defesa do consumidor acompanham a tramitação do projeto para garantir proteção às informações dos consumidores. O receio é com o uso que as empresas farão desses dados, além do crescente número de vazamento de informações sigilosas ao redor do mundo. “Após contribuições dos órgãos de defesa do consumidor, o PL 212/16 [texto original] avançou significativamente nesse ponto. Agora, a proposta legislativa prevê que as instituições financeiras não terão acesso aos dados pessoais detalhados do consumidor, mas apenas à chamada Nota de Crédito”, diz o subprocurador-geral da República José Elaeres Teixeira, coordenador da Câmara de Consumidor e Ordem Econômica do MPF. Em entrevista concedida ao próprio Ministério Público, Teixeira avalia que o Cadastro Positivo não conseguiu, em seis anos, ampliar a concorrência no setor de crédito e reduzir os juros ao consumidor, mas em razão da baixa adesão ao programa. No entanto, para o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), a proposta atual carece de garantias aos consumidores, que ainda correriam riscos de terem suas informações mal utilizadas pelas empresas, ou ficarem sem proteção em caso de vazamento de dados. O advogado Rafael Zanatta, pesquisador de em direito digital do Idec, critica a retirada da "responsabilidade solidária" da Lei do Cadastro Positivo. Esse dispositivo permitia ao consumidor entrar com ação contra qualquer uma das instituições envolvidas, em caso de vazamento de dados, para que a responsabilização seja feita de forma compartilhada. Isso é ainda mais importante, diz ele, porque no Brasil não existe uma lei geral de proteção a dados pessoais. — O projeto dá um passo grande, com compartilhamento de informações de 120 milhões de pessoas de bancos para os birôs, então é preciso ter cuidado e contrabalancear com uma série de direitos. Segundo o advogado, o novo projeto não deixa evidente o que seriam as chamadas “informações excessivas”, que não podem ser usadas para formação da nota de crédito. Com o termo vago, ele afirma ainda que as empresas podem cruzar os dados do histórico de pagamentos com informações pessoais e de comportamento coletadas em redes sociais. — Tem que ter regras de que tipo de informação você pode usar como informação relevante para análise de crédito. Segundo Ihoshi, o substitutivo que será debatido hoje proíbe o uso de informações não financeiras na avaliação de risco do consumidor. — Cada banco de dados poderá somente utilizar na formação do seu score os seus dados financeiros. Não pode misturar informações, cruzar dados sobre preferências do consumidor, que estão fora do escopo dos dados financeiros.

Fonte: Record

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